



Os fatores genéticos relacionados ao comportamento estão intimamente ligados com comportamentos inatos. O comportamento inato são aqueles geneticamente programados e podem ser realizados sem qualquer experiência prévia ou treinamento, ou seja, são realizados desde o primeiro estímulo apresentado, por exemplo, reflexo de sucção de bebês quando a mãe coloca o peito em sua boca. A base neural por trás desse comportamento é modulada a nível medular a partir do recebimento de estímulos aferentes sensoriais, não sendo observado envolvimento de centros superiores do sistema nervoso central no momento dessa resposta. Dessa forma, esse tipo de comportamento já é predestinado geneticamente e pode ou não perdurar por toda vida do indivíduo.
Os fatores ambientais interligados ao comportamento possuem relação com a cultura e meio social em que um indivíduo está inserido. Trabalhos mostram que fatores ambientais externos podem definir o que uma criança pode tornar-se quando adulta. Além disso, trabalhos realizados com EEG, fNIRS e fMRI mostram por exemplo que crianças que viveram uma infância em uma família com condição socioeconômica baixa apresentaram alterações prejudiciais cerebrais funcionais e estruturais. Outros estudos também mostraram que a neuromodulação no córtex pré-frontal pode influenciar na tomada de decisão e no comportamento social. Além disso, sabemos que 0 aos 11 anos, o cérebro da criança pode chegar a possuir o dobro de sinapses do cérebro adulto (principalmente em 12 meses após o nascimento), sendo uma fase na qual aprendemos com mais facilidade, ao mesmo tempo em que temos uma grande dificuldade de estabilizar nossas emoções. Geralmente é nessa fase em que a cultura age de forma mais intensa sobre o processo de formação do indivíduo como um ser social e de seus preconceitos.
Já os fatores epigenéticos estão relacionados com a interação entre a genética e o ambiente na formação de um fenótipo. Aqui vamos discutir apenas sobre a neuroepigenética e como isso pode impactar na cognição e comportamento. A neuroepigenética é o estudo de como as alterações epigenéticas estão relacionadas ao sistema nervoso, interferindo em seu funcionamento a nível fisiológico e comportamental. Existem várias formas de se modificar a expressão dos genes sem modificar o sequenciamento de do DNA, como a metilação, modificações nas histonas e RNAs não codificantes. A metilação é um processo epigenético pelo qual ocorre a adição de grupo metil em áreas específicas do DNA, na qual atenuam a expressão gênica pela inibição da transcrição naquela área. Na maioria das vezes, ocorre a metilação da base nitrogenada citosina presente na cadeia do DNA pela ação da enzima metiltransferase, onde a adição do grupo metil ocupa os sítios de ligação de ativadores da transcrição, impedindo que que ocorra a transcrição do DNA naquela região específica, e consequentemente a expressão do gene. Já em relação às modificações das histonas, esse fenômeno acontece quando as histonas, que são proteínas com carga positiva que se associam ao DNA, mudam seu grau de acetilação, podendo compactar mais ou menos o material genético, o que pode alterar sua expressão. O aumento da acetilação de histonas, por exemplo, deixa as fitas de DNA que estão "enroladas" nessas proteínas mais livres, fazendo com que que fatores de transcrição possam acessar o DNA da região favorecendo a expressão daquele gene específico. O contrário acontece com a diminuição da acetilação, dificultando a expressão genética. Outro tipo de modificação da expressão genética sem alterar a sequência do DNA são os RNAs não codificantes, que induzem alterações nos processos transcricionais e pós- transcricionais através das RNAs interferentes (siRNA), além de participar da formação da heterocromatina e estabilidade genômica. Todos esses três tipos de mecanismos epigenéticos são importantes para garantir a para interação genoma-ambiente, que podem gerar uma mudanças fenotípicas adaptativas a longo prazo que podem ser transmitidas aos descendentes. Sabendo de tudo isso, quais repercussões cognitivas que esses mecanismos epigenéticos podem trazer? Um exemplo disso é a importancia do mecanismo epigenético no processo de aprendizagem. Sabe-se que após a obtenção de uma informação, o cérebro transmite-a para áreas específicas que dependem da síntese proteica para armazenar essa informação como uma memória. Como sabemos, existe um mecanismos genético envolvendo DNA e RNAs por trás da síntese proteica, é aí que a epigenética pode atuar dependendo dos estímulos ambientais recebidos através de inibidores da síntese protéica ou indução da a fosforilação do CREB e da apoptose neuronal. Outro exemplo agora no âmbito social foram trabalhos realizados com humanos que definiram marcadores epigenéticos socioeconômicos e de estilo de vida, onde foi encontrado maior metilação de DNA em pessoas mais pobres. Outro trabalho realizado nos Estados Unidos mostrou uma diferença epigenética relacionada à saúde cardiovascular de pessoas negras e brancas. Para ambos os casos, dependendo da fonte midiática ou do grupo social/racial envolvido, esses resultados podem intensificar uma justificativa racista ou classista, podendo aumentar a disparidade social e racial.
Visto a importância do desenvolvimento de competências socioemocionais durante o desenvolvimento infantojuvenil, é importante desenvolver trabalhos envolvendo possíveis alterações de padrões cerebrais (EEG e fNIRS) e melhora de tais competências durante essa fase da vida em diferentes populações, tendo em vista a influência epigenética de diferentes sociedades culturais. Dessa forma vamos sugerir aqui um esboço de desenho experimental. Estudos anteriores revelaram diferenças significativas no desempenho em testes cognitivos não dependentes de linguagem em contextos internacionais entre indivíduos mais jovens, com diferenças menos pronunciadas evidentes entre indivíduos mais velhos (>54 anos de idade). Outros trabalhos também mostraram que em crianças suíças foi encontrados valores mais fortes de potência da banda delta nas áreas frontais mesiais e valores de potência mais fortes em três das quatro bandas de frequência nas áreas occipitais. Para crianças da Arábia Saudita, foi mostrado um poder de banda alfa mais forte sobre o córtex sensório-motor. Visto isso, é imprescindível a investigação dos padrões cerebrais eletrofisiológicos (EEG) e hemodinâmicos dos grupos (NIRS). Visando avaliar o desenvolvimento das competências, seria interessante desenvolver um protocolo de implementação do conhecimento e aprendizagem por meio da apresentação de conteúdos educativos inovadores, que possam oferecer o máximo de estímulo a essas crianças. É importante que o conteúdo educativo inovador utilizado se mostre livre de preconceitos estabelecidos pela sociedade em que a criança vive, sempre prezando a idéia de que a moral e os valores éticos são fatores variantes e abrangentes, como já comentamos aqui. Para isso, pode ser oferecido conteúdo de ampla gama cultural, política e social, como informações nesse contexto de outras sociedades do mundo atual ou até mesmo histórias de outras civilizações presentes na américa latina antes do período colonial, por exemplo, tudo de forma mais lúdica e interativa possível de acordo com o estágio de compreensão e faixa etária da criança. Além disso, considerar pelo menos 3 grupos de crianças de diferentes culturas e sociedades distintas a fim de investigar as possíveis influências genéticas sobre o protocolo de conteúdos educativos. Também é importante considerar crianças de 5 e 12 anos, pois essa é a idade que se inicia a poda neural. Dessa forma, as crianças de dois meios culturais e de localizações geográficas diferentes (crianças A, B e C) poderiam ser alocadas em 6 grupos distintos: grupo 1 (Crianças A sem conteúdos educativos inovadores), grupo 2 (Crianças A com conteúdos educativos inovadores), grupo 3 (Crianças B com conteúdos educativos inovadores), grupo 4 (Crianças B sem conteúdos educativos inovadores), grupo 5 (Crianças C com conteúdos educativos inovadores), grupo 6 (Crianças C sem conteúdos educativos inovadores). As avaliações de EEG/NIRS podem ser realizadas antes e depois da intervenção educativa juntamente com avaliação cognitiva e de competências socioemocionais (Figura abaixo).
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