
Devido a pandemia de Corona vírus, durante as últimas semanas estamos vivendo em uma condição complemente atípica e, para a maioria de nós, algo nunca visto ou imaginado. Cidades e estados inteiros com restrição de fluxo de pessoas; shoppings, lojas, praças, parques fechados; suspensão, adiamento ou mesmo o cancelamento de grandes eventos como shows e eventos esportivos; e a quarentena ou distanciamento social que tem feito com as pessoas precisem ficar dentro de suas casa e sair apenas quando estritamente necessário. Tudo isso associado as notícias globais as respeito dos números sobre a pandemia e praticamente exclusiva cobertura a respeito desse tema tem elevado o nível de preocupação individual e coletiva.
Nesse contexto, não apenas a saúde “física” tem sido colocada em evidência, mas mais do que nunca, a saúde mental, pois muita gente tem estrado em um estado, praticamente, de pânico. Assim, o medo da morte surge como uma forte barreira para a continuação das atividades cotidianas, relacionamentos familiares, e até desempenho ocupacional.
De acordo com a Teoria de Administração do Terror (do inglês “terror management theory”; TMT), parte da motivação humana básica para participar em uma determinada cultura e buscar autoestima é acalmar as preocupações em relação a mortalidade e obter uma sensação de proteção e transcendência da morte. Ainda de acordo com a TMT, a consciência humana a respeito mortalidade entra em conflito com a predisposição biológica mais básica, que é sobreviver, o que cria a possibilidade de um estado elevado de ansiedade. A sociedade lida de diferentes formas com esse conflito para não entrar em um estado de ansiedade elevada. Assim, a TMT propõe que a autoestima é uma forma que os indivíduos encontram para sentir que estão vivendo a altura dos padrões de uma determinada sociedade é que ele/a é um membro valioso para determinada sociedade de acordo com os valores culturais dela. Quanto mais um indivíduo consegue validar sua visão de valor dentro daquela cultura, mais ele aumenta seu senso de valor e mais consegue minimizar a possível ansiedade causada pela consciência da mortalidade (medo da morte). Basicamente, a autoestima e as visões culturais de valor são formas de atenuar a ansiedade do medo de morrer.
Na prática, em condições normais de vida (antes da pandemia ou sem ela) as pessoas trabalhavam, encontravam amigos e parentes (interagiam socialmente), e tinham os mais diversos tipos de atividades que alimentavam o seu senso de utilidade dentro dessa cultura e também sua autoestima. Além disso, a ocupação de seu tempo com suas rotinas, deixavam pouco espaço ou tempo para o autoconhecimento ou reflexão a respeito de suas vidas. Assim, com a necessidade (até mesmo imposição) de ficar em casa e sair apenas quando e se estritamente necessário, além do elevado número de infectados e mortos pelo doença causada pelo corona vírus tem nos lembrado da nossa condição básica e da única certeza que todo ser humano vivo tem: de que um dia iremos morrer. Entretanto, dado o estado de pandemia, parece que há uma proximidade maior com a morte. Assim a alteração de rotinas, estilos de vida, e, em última instância, da própria VIDA tem causado problemas de saúde mental em diversas pessoas sem histórico prévio e descompensação naqueles que já possuíam algum histórico.
Mas, e se nós te disséssemos que o medo da morte também pode ser um potente motivador? Há bastante tempo é discutido dentro da área da psicologia a chamada “motivação da morte” ou “motivação com a morte”. Em um estudo de revisão de 1983, Lowental afirmou que os seres humanos desenvolvem uma motivação complexa para a morte, que é mais do que biologia (instintos) ou física (entropia). Que inclui (a) o instinto de morte, o principal análogo; (b) sequelas da experiência universal da perda de objetos, com identificação e fantasias de uma reunião restaurativa; (c) culpa por atitudes hostis em relação ao objeto perdido, com depressão, anseios por expiação e autopunição; (d) cumprimento da realidade, como a velhice ou a doença grave. Em sua revisão, o autor examina à luz da série complementar da equação etiológica de Freud, como o instinto de morte se transforma em uma pré-condição que compõe a motivação.
Um exemplo interessante de como o medo da morte pode ser utilizado como fonte de motivação foi dado por um grupo de pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade do Arizona. Em um estudo publicado no Jornal de Psicologia do Exercício e do Esporte (Journal of Sport and Exercise Psychology) em 2016 os autores realizaram dois experimentos.
No primeiro experimento, os pesquisadores utilizaram a saliência de mortalidade (relembrar as pessoas que elas são mortais). Os participantes realizavam um jogo de “um contra um” no basquetebol contra um atleta da modalidade que era instruído a jogar o melhor possível. Após esse primeiro jogo, os participantes eram submetidos a duas condições experimentais (1) preencher um questionário que fazia os participantes pensar a respeito de sua mortalidade ou (2) a pensar em um assunto neutro (jogar basquetebol).
Os participantes da condição 1, saliência de mortalidade, receberam as perguntas abertas prototípicas sobre sua mortalidade: "Descreva brevemente os pensamentos e emoções que o pensamento de sua própria morte desperta em você" e "Anote o mais especificamente possível, o que você acha que acontecerá com você enquanto você morre fisicamente e quando estiver fisicamente morto ". Na condição de controle, os participantes responderam a perguntas paralelas sobre jogar basquete: “Descreva brevemente os pensamentos e emoções que o pensamento de jogar basquete desperta em você” e “Anote o mais especificamente possível, o que você acha que acontecerá com você quando você joga basquete". O objetivo desses questionários era fazer com que os participantes pensassem em sua mortalidade, as respostas dos participantes não foram usadas de forma alguma.
Após essas condições eles realizaram um novo jogo de “um contra um”. Os pesquisadores gravaram em vídeos os jogos e avaliaram aspectos do desempenho no jogo como percentual de arremessos convertidos, rebotes, roubadas de bola, etc.
As análises demonstraram que os participantes após serem lembrados de sua mortalidade apresentaram uma melhora de 40% em relação ao primeiro jogo e também 20% melhor comparado grupo controle em relação ao número de pontos. Interessantemente, mesmo sendo induzidos a pensar sobre o seu desempenho no basquetebol, o grupo controle não apresentou modificações no desempenho.
No segundo experimento os pesquisadores tentaram replicar os resultados do primeiro experimento, mas sem a necessidade do adversário. Considerando que a variável que melhorou após a indução dos pensamentos a respeito da mortalidade foi a de arremesso, os pesquisadores focaram apenas nessa tarefa. Nesse segundo experimento, para fazer os participantes pensarem a respeito da morte/mortalidade os pesquisadores utilizaram um estímulo mais sutil que da primeira vez. Eles utilizaram uma técnica chamada “priming”, que não possui uma tradução muito boa para o português, mas pode ser considerado como uma espécie de “pré-ativação” ou “preparação”.
Basicamente o priming consiste em uma técnica onde a exposição a um estímulo influencia a resposta a um estímulo subsequente, sem que haja uma condução ou intenção consciente. Por exemplo, a palavra ENFERMEIRA é reconhecida mais rapidamente após o indivíduo ter visto a palavra MÉDICO do após ter visto a palavra PÃO. Bem, no caso desse estudo o priming foi feito por meio de uma camisa que o pesquisador que explicava a tarefa estava vestindo que continha um crânio e da palavra MORTE repetida várias vezes na impressão. Ou seja, basicamente a indução dos pensamentos de morte foi feita pela visualização da camisa do pesquisador. A condição experimental e controle era controlada por meio de uma jaqueta com zíper, onde o pesquisador abria o zíper para expor a camisa na condição experimental e fechava o zíper para que o participante não visse a sua camisa na condição controle.
A tarefa para medir o desempenho no experimento 2 consistia em converter o maior número de pontos possíveis em 60 segundos. Os arremessos poderia ser de 1, 2 ou 3 pontos de acordo com os arremessos em um jogo de basquete. Para aumentar a dificuldade e a variabilidade da tarefa os participantes não poderiam fazer 2 arremessos do mesmo tipo consecutivamente.
Interessantemente, os participantes que foram expostos ao priming de morte marcaram mais pontos que o grupo que não foi exposto (11.85 pontos Vs. 8.33 pontos, respectivamente), o que representou um desempenho 30% melhor. Adicionalmente, os pesquisares mostraram que a indução do priming de morte que resultou em uma melhor performance também foi relacionada a uma maior autoestima após a tarefa de arremessos.
É importante destacar que muitos de nós não somos acostumados a pensar na ideia da morte, ou de termos consciência dela (que nossa “hora” um dia vai chegar). Isso de certa forma piora a ansiedade/medo da morte. Nesse sentido, considerando o despreparo, de modo geral, dos profissionais da área da saúde com relação a morte dos pacientes, McClatchey e King realizaram um experimento com 86 estudantes da área da saúde onde introduziram aulas a respeito da morte. Após a intervenção, os participantes do estudo apresentaram uma menor ansiedade relacionada a morte e medo da morte, em comparação ao grupo que não recebeu a intervenção. Assim, é importante trabalharmos essas questões para que tenhamos uma consciência mais plena de nossa vida, propósitos, metas, sonhos, assim como a consciência de nossa natureza finita (ou seja, da morte) para que possamos tirar o melhor proveito de nossas vidas naquilo que nos propormos a fazer e que possamos usar a motivação proveniente dessa consciência para sermos ainda melhor. Uma outra perspectiva interessante que alguns pesquisadores têm discutido é: nós temos de morrer ou temos medo de viver? Erthal (1986) sugeriu que o medo da morte parece ser maior em pessoas que tiraram menos proveito das suas possibilidades existenciais. Além disso, Lyke (2013) mostrou que a busca por significado na vida foi associada com medo da morte em adultos jovens. Isso enfatiza a importância da consciência plena.
Portanto, se você nesse momento de afastamento social está enfrentando problemas com relação ao medo da morte, pode ser interessante procurar ajuda profissional. Há vários psicólogos e psiquiatras atendendo de forma remota (pela internet), inclusive algumas iniciativas de atendimento gratuito. Você também pode procurar grupos de apoio para conversar com outras pessoas e/ou conhecer outras realidades de pessoas que estão passando pelo mesmo problema que o seu. Há algumas técnicas de relaxamento e meditação que podem ajudar a amenizar as preocupações e diminuir o estresse, inclusive o medo da morte, como por exemplo a respiração lenta ou yoga que pode ser orientada até por meio de aplicativos no celular.

Aproveite esse tempo para se reconectar consigo mesmo e com parentes e amigos: faça um vídeo chamada para aquele amigo ou conhecido que você gosta, mas faz bastante tempo que não se falam, ligue para familiares. Se você possui alguma espiritualidade (não necessariamente uma religião) tente se conectar a ela. Por exemplo, um posicionamento recente da Sociedade Brasileira de Cardiologia colocou a espiritualidade como um fator de proteção cardiovascular. Enfim, tente encontrar um ponto de equilíbrio entre fazer o que precisa ser feito no seu dia a dia (tarefas domésticas, home-office, etc.) e também para se conhecer um pouco melhor e aumentar a sua consciência.
Referências
Erthal TC. Medo da morte: medo da vida? [Fear of death: fear of life?]. Acta Psiquiatr Psicol Am Lat. 1986;32(3):215–222.
Lowental U. The death instinct. Psychoanal Rev. 1983;70(4):559–570.
Lyke J. Associations among aspects of meaning in life and death anxiety in young adults. Death Stud. 2013;37(5):471–482. doi:10.1080/07481187.2011.649939
McClatchey IS, King S. The Impact of Death Education on Fear of Death and Death Anxiety Among Human Services Students. Omega (Westport). 2015;71(4):343–361. doi:10.1177/0030222815572606
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Scherwitz L, Pullman M, McHenry P, Gao B, Ostaseski F. A contemplative care approach to training and supporting hospice volunteers: a prospective study of spiritual practice, well-being, and fear of death. Explore (NY). 2006;2(4):304–313. doi:10.1016/j.explore.2006.04.001Zestcott CA, Lifshin U, Helm P, Greenberg J. He Dies, He Scores: Evidence That Reminders of Death Motivate Improved Performance in Basketball. J Sport Exerc Psychol. 2016;38(5):470–480. doi:10.1123/jsep.2016-0025
Outras referências nessa temática
Auxéméry Y. The "near-death experience" during comas: psychotraumatic suffering or the taming of reality?. Med Hypotheses. 2013;81(3):379–382. doi:10.1016/j.mehy.2013.05.021
Grumann MM, Spiegel D. Living in the face of death: interviews with 12 terminally ill women on home hospice care. Palliat Support Care. 2003;1(1):23–32. doi:10.1017/s1478951503030116
Harrawood LK, White LJ, Benshoff JJ. Death anxiety in a national sample of United States funeral directors and its relationship with death exposure, age, and sex. Omega (Westport). 2008;58(2):129–146. doi:10.2190/om.58.2.c
Hessing DJ, Elffers H. Attitude toward death, fear of being declared dead too soon, and donation of organs after death. Omega (Westport). 1986;17(2):115–126. doi:10.2190/5nb6-djdw-b68g-6t56
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